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A Tale of Two Polands (in Portuguese)

The article I wrote about my book tour through Poland last year is out in Portuguese, in a very fine magazine of Jewish studies edited in Belo Horizonte (Brazil). 

The English-language original will be published tomorrow in Talking Writing, an excellent online literary magazine.

Here is an excerpt.  For the full article, go to the link.

 

História de duas Polônias

Richard Zimler

 

Itzhak Gutkind, pai da minha mãe, cresceu numa moradia de três andares em Brzeziny, uma cidade buliçosa no centro da Polônia, coração da indústria têxtil. Naquela época, finais do século 19, as casas geminadas, de estilo vitoriano e pintadas de cores garridas, eram habitadas por uma miscelânea de 7.500 judeus, 5.000 poloneses, 1.200 alemães e várias centenas de russos. Três mil dos residentes desenhavam e confecionavam roupas em pequenas fábricas e ateliês familiares e a maioria dos rapazes judeus – incluindo Itzhak, mais conhecido por Iccy – eram aprendizes de alfaiate. Como convinha à região têxtil mais importante da Europa central, com clientes vindos de tão longe como o extremo oriente russo, Brzeziny ostentava a Grande Sinagoga de estilo neoislâmico, a que não faltavam os minaretes. O meu avô teria ouvido frequentemente o som velado dos cânticos vindos do seu interior, pois vivia com os pais do outro lado da rua.

Nenhum chantre voltou a entoar orações em Brzeziny desde os finais de maio de 1942, quando os soldados nazistas aniquilaram o gueto que tinham criado apenas dois anos antes. Cerca de 2.000 dos 5.800 judeus que tinham sido forçados a viver no gueto – incluindo todas as crianças com menos de dez anos – foram levados diretamente para o campo de concentração de Chelmno e mortos nas câmaras de gás. As 3.800 pessoas que restaram foram transportadas para o gueto de Łodź, a vinte quilômetros, desumanamente sobrelotado e dizimado por doenças.

Noventa e cinco por cento dos 200.000 habitantes daquela ilha urbana judaica – uma secção da cidade com uma área de quatro quilômetros quadrados e isolada do resto do mundo – acabariam por morrer de fome, de doença ou assassinados em Chelmno ou Auschwitz.
Felizmente, os meus avós, Iccy e a sua mulher, Genendel Kalish, nascida em Brzeziny, nessa altura já tinham emigrado para a América e construído uma vida confortável no Brooklyn. Ruth, minha mãe, era a terceira dos seus quatro filhos. Mas nenhum dos oito irmãos e irmãs dos meus avós, que ficaram na Polônia, teriam a oportunidade de a conhecer ou de voltar à sua cidade natal. Mesmo hoje, sessenta e seis anos passados do fim da guerra, poderíamos dizer que Brzeziny continua a representar uma vitória para os nazistas pois, tal como milhares de vilas e cidades da Polônia, mantém-se Judenfrei – livre de judeus. 

Tanto é que, quando o meu editor polonês propôs uma digressão literária pela Polônia na ocasião da publicação do meu último romance, Os anagramas de Varsóvia, passado no gueto de Varsóvia em 1940 e 1941, meu coração caiu aos pés e fiquei quase em pânico. Embora minha mãe já tivesse morrido há alguns anos, era como se estivesse a vê-la, de mãos para cima, como se para mandar parar um carro que se aproximasse veloz, a gritar: “Não te atrevas!”. Como a maioria dos judeus de origem polonesa, ela e os meus avós sempre guardaram mais rancor dos poloneses do que propriamente dos nazistas, e consideravam todos como antissemitas até à medula.

Mesmo com a advertência da minha mãe a assombrar-me os pensamentos, decidi ir; percebi que a ida de um neto de judeus poloneses à Polônia para promover um romance passado no gueto de Varsóvia, poderia suscitar alguma discussão nos meios de comunicação sobre os 3,3 milhões de judeus poloneses que morreram na Shoah e sobre o que podemos aprender com as suas mortes. De um ponto de vista mais pessoal, viajar pela Polônia daria, também, a mim a oportunidade de visitar a cidade natal dos meus avós, um desejo secreto que acalento há três décadas. E foi assim que, no final de novembro, ao fim de quase setenta anos, fui a primeira pessoa da minha família a percorrer as ruas íngremes e esburacadas de Brzeziny. No domingo, 20 de novembro, pouco antes do meio-dia, vi o que nunca pensei chegar a ver: a casa do meu avô.